(Foto: Ludmila Tangerina)
Algumas pessoas ocupam dentro de nós um espaço emocional
inconfessável
Tem gente que vai ficando na nossa vida. A gente conhece, se
envolve, termina, mas não coloca um ponto final. De alguma forma a coisa segue.
Às vezes, na forma de um saudosismo cheio de desejo, uma intimidade que fica a
milímetros de virar sexo. Em outras, como sexo mesmo, refeição completa que
mata a fome mas não satisfaz, e ainda pode causar dor de barriga. Eu chamo isso
de caso inacabado.
Minha impressão é que todo mundo tem ou teve alguma coisa
assim na vida. Talvez seja inevitável, uma vez que nem todas as relações
terminam com o total esgotamento emocional. Na maior parte das vezes, temos
dúvida, temos afeto, temos tesão, mas as coisas, ainda assim, acabam. Porque o
outro não quer. Porque os santos não batem. Porque uma terceira pessoa aparece
e tumultua tudo. Mas o encerramento do namoro (ou equivalente) não elimina os
sentimentos. Eles continuam lá, e podem se tornar um caso inacabado.
Isso às vezes acontece por fraqueza ou comodismo. Você sabe
que não está mais apaixonado, mas a pessoa está lá, dando sopa, e você está
carente... Fica fácil telefonar e fazer um reatamento provisório. Se os dois
estiverem na mesma vibração – ou seja, desapaixonados – menos mal. Mas em geral
não é isso.
Quase sempre nesse tipo de arranjo tem alguém apaixonado (ou
pelo menos, dedicado) e outro alguém que está menos aí. A relação fica
desigual. De um lado, há uma pessoa cheia de esperança no presente. Do outro,
alguém com o corpo aqui, mas a cabeça no futuro, esperando, espiando, a fim de
algo melhor.
Claro, não é preciso ser psicólogo para perceber que mesmo
nesses arranjos desequilibrados a pessoa que não ama também está enredada. De
alguma forma ela não consegue sair. Pode ser que apenas um dos dois faça gestos
apaixonados e se mostre vulnerável, mas continua havendo dois na relação.
Talvez a pessoa mais frágil seja, afinal, a mais forte nesse tipo de caso. Pelo
menos ela sabe o que está fazendo ali.
A minha observação sugere, porém, que boa parte dos casos
inacabados não contém sexo. A pessoa sai da sua cama, sai até da sua vida, mas
continua ocupando um espaço na sua cabeça. Você pode apenas sonhar com ela,
pode falar por telefone uma vez por mês ou trocar emails todos os dias. De
alguma forma, a história não acabou. A castidade existe, mas ela é apenas
aparente. Na vida emocional, dentro de nós, a pessoa ainda ocupa um espaço
erótico e afetivo inconfessável.
Esse tipo de caso inacabado é horrível. Ele atrapalha a
evolução da vida. Com uma pendência dessas, a gente não avança. Você encontra
gente legal, mas não se vincula porque sua cabeça está presa lá atrás. Ou você
se envolve, mas esconde do novo amor uma área secreta na qual só cabem você e o
caso inacabado. A coisa vira uma traição subjetiva. Não tem sexo, não tem
aperto de mãos no escuro, mas tem uma intimidade tão densa que exclui o outro –
e emocionalmente pode ser mais séria que uma trepada. Ainda que seja mera
fantasia.
A rigor, a gente pode entrar numa dessas com gente que nunca
namorou. Basta às vezes o convívio, uma transa, meia transa, e lá está você,
fisgado por alguém com quem nunca dormiu – mas de quem, subjetivamente, não
consegue se esquivar. Telefona, cerca, convida. Estabelece com a pessoa uma
relação que gira em torno do desejo insatisfeito, do afeto não retribuído. Vira
um caso inacabado que nunca teve início, mas que, nem por isso, chega ao fim.
Um saco.
Se tudo isso parece muito sério, relaxe. Há outro tipo de
caso inacabado que não dói. São aquelas pessoas de quem você vai gostar a vida
toda, cuja simples visão é capaz de causar felicidade. Elas existem. Você não
vai largar a mulher que ama para correr atrás de uma figura dessas, mas, cada
vez que ela aparecer, vai causar em você uma insurgência incontrolável de
ternura, de saudades, de carinho. O desejo, que já foi imenso, envelheceu num barril
de carvalho e virou outra coisa, meio budista. Você olha, você lembra, você
poderia querer – mas já não quer. Você fica feliz por ela, e esse sentimento é
uma delícia.
Para encerrar, uma observação: o alcance e a duração dos
casos inacabados dependem do momento da vida. Se você está solto por aí, vira
presa fácil desse tipo de envolvimento. Acontece muito quando a gente é jovem,
também se repete quando a gente é mais velho e está desvinculado. Mas um grande
amor, em qualquer idade, tende a por as coisas no lugar. Uma relação intensa,
duradoura, faz com que a gente coloque em perspectiva esses enroscos. Eles não
são para a vida inteira, eles não determinam a nossa vida. Quem faz diferença é
quem nos aceita e quem nós recebemos em nossa vida. O que faz diferença é o que
fica. O resto passa, que nem um porre feliz ou uma ressaca dolorosa.
(Ivan Martins escreve às quartas-feiras - Editor executivo da ÉPOCA)

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